The Clint is back

Essa maravilhosa capa da GQ, que escolhe Clint Eastwood não apenas como um dos homens do ano, mas também como o BADASS do ano, nos lembra que em breve The Clint estará de volta às telas. Depois do sensacional Gran Torino, ele conta a história de Nelson Mandela e do jogador branco de rugby que virou herói na África do Sul. O trailer do filme é meio bizarro, tem aquela coisa assustadora de “inspiring story” e, o que é mais assustador ainda, Matt Damon no papel do jogador. Mas se alguém pode transformar histórias banais em filmes fodas, esse é alguém é o Clint.

Eis a justificativa que ele dá sobre a importância de fazer Invictus, que estreia no Brasil em 20 de janeiro: “The world needs this kind of story nowadays. It’s just…everybody’s so screwed up. It seems like our country’s in a kind of morbid mood, because of the recession or whatever. We’re becoming juvenile as a nation. The guys who won World War II and that whole generation have disappeared, and now we have a bunch of teenage twits.”

We’re becoming juvenile as a nation, que frase boa, não? Na GQ ele também diz que medita duas vezes ao dia (Lynch e Clint, talvez eu deva começar), evita comer gordura saturada, malha 30 minutos ao dia e que hoje gosta da monogamia. “Eu nunca achei que ia chegar lá, mas cheguei e é bacana”, conta ele. Mais sobre a revista aqui e o trailer abaixo:

 

Balanço da Mostra

Vistos e comentados todos os filmes, chegou a hora de organizar os tops melhores e piores da edição 2009 da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. É claro que eu só vou considerar os 18 filmes que assisti, entre os mais de 400 que foram exibidos, um número muito abaixo dos 42 de 2007. Mas, se for pensar bem, eu aproveitei bem mais esse festival do que outro. Esse negócio de ver três filmes seguidos não dá muito certo pra mim, eu me estresso, durmo, não presto atenção e perco um pouco a magia da coisa. A verdade é que a Mostra cansa, e eu já tô ficando velha.

 

TOP 5 – MELHORES FILMES

Dente Canino

A Fita Branca

Lebanon

Mau Dia para Pescar

Sede de Sangue

 

TOP 5 – PIORES FILMES

A Invenção da Carne

A Peça da Discórdia

A Ressurreição de Adam

Sobre Pais e Filhos

Voluntária Sexual

 

TOP 3 – ACHEI QUE NÃO IA GOSTAR E ME SURPREENDI

O Dia da Transa

Lebanon

A Pequenina

 

TOP 3 – ACHEI QUE IA GOSTAR E ME DECEPCIONEI

A Ressurreição de Adam

Eu, Ela e Minha Alma

Vencer

 

TOP 3 – MELHORES TIROS NO ESCURO

Katalin Varga

Mau Dia para Pescar

A Pequenina

 

TOP 3 – PIORES TIROS NO ESCURO

A Invenção da Carne

A Peça da Discórdia

Sobre Pais e Filhos

 

TOP 1 – COMPREI O INGRESSO, MAS DESISTI DE VER

Hemingway, Adeus

 

E DIGO MAIS: até ano que vem.

 

Lebanon

lebanonQuando o assunto é festival de cinema, um dos que eu menos respeito é o de Veneza, porque ultimamente os jurados de lá só premiam filmes que eu acho toscos (como Redacted, do Brian de Palma) ou chatos (Lust, Caution, do Ang Lee), além de atores que eu acho ruins (Ben Affleck sendo o caso mais grave). Mas o vencedor do Leão de Ouro desse ano, Lebanon, de fato é um filmaço, que tem diversos elementos claustrofóbicos e pesados dos quais eu reclamei em posts recentes, mas não a ponto de o tema e as cenas difíceis o transformarem em um filme difícil de assistir.

Escrito e dirigido pelo israelense Samuel Maoz, baseado em suas próprias experiências como militar, Lebanon conta a história de um grupo de soldados de Israel durante a guerra com o Líbano em 1982. Talvez uma sinopse mais “factual” deva informar que o grande conflito é resgatar os soldados de uma área urbana, na qual estão sob fogo de tropas da Síria. Mas eu acho que Lebanon não é exatamente um filme de “ações”, mas , sim, de observação da situação daqueles soldados. O grande “tchan”, na verdade, é que toda a história se passa dentro de um tanque de guerra, e nossa única visão exterior se dá pelo aparelho usado pelo atirador para acertar sua mira.

Dentro daquele tanque acompanhamos todo tipo de coisa: o desespero do soldado que, pela primeira vez, vai atirar em uma pessoa e não em um barril; a preocupação com os pais; a vontade de ir para casa; o medo de morrer; a brutalidade na hora de matar os outros; os conflitos entre os militares de diferentes hierarquias; a situação humilhante dos prisioneiros de guerra; a sujeira, a falta de comida, o racionamento de água e as dificuldade de se viver em um espaço tão pequeno e claustrofóbico, entre outras situações que não deixam dúvida: mesmo se aqueles homens chegarem em casa com vida, vão estar para sempre marcados pelo que viram e fizeram durante o conflito.

No início do filme, quando eu entendi que íamos ficar só dentro daquele tanque, eu tive a certeza de que ia odiar Lebanon. Mas depois que me acostumei com o estilo, achei a ideia fantástica. O incômodo permanece, mas o diretor não deixa que a ação fique o tempo todo centrada em tiros, bombas, mortes e tal. Muitas vezes os soldados estão dentro do tanque conversando sobre a vida, contando a história de como um abraço da professora provocou uma ereção e coisas desse tipo, que mostram como são humanas aquelas pessoas que estão fazendo as coisas mais desumanas do mundo.  E DIGO MAIS: como a história se passa no Oriente Médio, uma região sempre marcada por conflitos, o filme ganha uma relevância incrível. Estamos na guerra de Israel e Líbano de 1982, mas também na ofensiva israelense contra o Hamas que devastou a Faixa de Gaza em janeiro de 2009, há menos de um ano.  O detalhe mais cruel é esse: ninguém pode assistir Lebanon e pensar que tamanha brutalidade é coisa do passado.

Os Dispensáveis

dispensaveisO alemão Andreas Arnstedt ganhou o prêmio de direção da Mostra por esse filme protagonizado por Jacob, um menino de 11 anos, criado por uma mãe e um pai que ganham pouco, bebem muito e têm um comportamento bastante violento. Depois de um “acidente” doméstico, a mãe é internada em uma clínica e resolve aproveitar a ocasião para iniciar um tratamento contra o alcoolismo. Na casa, ficam apenas Jacob e o pai, mas por pouco tempo, pois um dia o menino encontra seu pai morto. Com medo de ir parar em um orfanato, ele esconde o corpo e continua sua vida, mostrando, vez por outra, alguns comportamentos violentos que nós todos sabemos onde ele aprendeu.

Eu não sei exatamente o que as pessoas acharam de tão sensacional nesse filme, mas imagino que deva ter sido a estrutura marcada por flashbacks que vão, aos poucos, explicando a história. De fato é uma estrutura interessante, mas nada que a gente não tenha visto antes (e melhor). E DIGO MAIS: não sei se eu que ando sensível, mas também não foi um filme que eu gostei de assistir. Muita tristeza, muito tapa, muita bebida, muita sujeira, muita brutalidade, muita depressão, muita mão pesada do diretor. Como já disse aqui algumas vezes, entendo que os diretores queiram que a gente se sinta tão mal quanto os personagens, mas acho que isso tem que ser feito dentro de um limite que faça com que assistir o filme ainda seja uma experiência boa, que faça com que a gente não torça para aquilo acabar logo.  Os Dispensáveis até tem qualidades, mas depois de tanta badvibe, me esqueci quais eram.

A Ressurreição de Adam

poster_adam-resurrectedEsse é mais um exemplar de filme da Mostra que eu deveria ter gostado, a julgar pelas críticas dos especialistas, que lançaram o famoso “tem que ver” ao falar de A Ressurreição de Adam. Nosso amigo do título, interpretado por Jeff Goldblum, era um dos mais famosos artistas de “vaudeville” na Alemanha dos anos 1920.  O fato de ser judeu, porém, fez com que suas apresentações fossem proibidas pelo governo nazista, o que foi um mero probleminha comparado ao que veio em seguida: levado a um campo de concentração comandado por um cara doido chamado Klein, ele teve de se comportar como um cachorro (andar, comer, latir, tudo igual a um cachorro). Obviamente isso zoa a cabeça dele e, anos mais tarde, Adam vai viver em um hospício no deserto, dedicado a sobreviventes do Holocausto. O problema é que lá ele encontra um garoto que sofre do mesmo problema que ele sofreu: se comporta como cachorro. Com um misto de compaixão e raiva, Adam vai tentar ajudar o garoto – e ele mesmo – a ter uma vida normal.

Falando assim, apenas sobre a sinopse, eu de novo acho que deveria ter gostado desse filme. Mas, pra ser bem sincera, de todas as produções que eu vi na Mostra, essa foi sem dúvida a mais difícil de assistir, a que mais me causou mal, a que mais me fez querer sair da sala. Não foi o pior filme, mas foi o mais desagradável, principalmente porque a imagem daquela criança sendo arrastada por uma coleira me incomodou profundamente. E, na verdade, todo o clima do filme era meio claustrofóbico: campo de concentração, sanatório no deserto, gente doida, alucinação, criança achando que é cachorro, argh, argh, argh. É verdade que um fator pessoal complicou a minha relação com esse filme, que foi o fato de eu tê-lo assistido em um dos dias de uma das semanas recentes em que eu fiz 1.564 entrevistas e reportagens sobre a queda do Muro de Berlim. Fui ao cinema para aliviar a mente, mas me deparei com mais Alemanha, plus Holocausto, judeus massacrados, nazismo e imagens pesadas. E DIGO MAIS: talvez em outro dia a coisa fluísse melhor, mas como eu jamais vou me submeter a esse filme novamente, voto não.

London River

l_1227787_9614c48bEssa produção de Inglaterra, França e Argélia aborda um dos temas mais comuns do cinema atual: a imigração e a intolerância com “o outro”. Aliás, o diretor, Rachid Bouchareb, já tinha feito um belíssimo filme sobre o assunto, Dias de Glória, um dos meus preferidos da Mostra de 2006, que falava sobre o preconceito que sofriam os soldados argelinos que lutaram pela França na Segunda Guerra Mundial. O passado servia como ponto de partida para discutir a atual situação dos imigrantes na França, em um filme que saiu não muito tempo depois daqueles quebra-paus em Paris.

London River traz duas mudanças em relação a Dias de Glória: a ação se passa em Londres (duh!) e em um passado bem mais recente, logo depois dos ataques terroristas de 2005. Ao ouvir sobre os atentados, Elisabeth Sommers, uma jovem senhora que mora em uma fazenda, liga sem parar para a filha, Jane, moradora da capital da Inglaterra, para ter certeza de que ela está bem. Sem notícias, Elisabeth decide ir ao apartamento de Jane, que encontra vazio. Em Londres, ela conhece um homem, Ousmane, que deixou a França pelo mesmo motivo: em busca de notícias do filho desaparecido. Estas duas pessoas totalmente diferentes (ela é branca, cristã e do tipo que usa pullovers; ele é negro, muçulmano e cheio de dreadlocks) vão unir forças para encontrar os dois jovens e, nessa jornada, aprendem mais sobre o outro.

Talvez por essa sinopse vocês já devam estar imaginando onde a coisa toda vai dar, o que não é minha culpa porque, de fato, a história é um pouco previsível demais. E DIGO MAIS: por causa desse jeitão meio convencional, London River não é tão bom quanto outras produções recentes sobre esse assunto, como Entre os Muros da Escola, Caché, o já citado Dias de Glória, ou mesmo títulos norte-americanos como Gran Torino, O Visitante e Rio Congelado. Isso não significa que o filme seja ruim. Além de os atores serem talentosos (a Brenda Blethyn faz a Elisabeth, e o Ousmane é um cara chamado Sotigui Kouyaté), a ideia de promover o encontro entre eles logo depois dos atentados de Londres é muito boa. Porque durante a procura, fica claro que o preconceito de alguém como Elisabeth em relação a alguém como Ousmane não é, em si, um ato terrorista, mas um sentimento que colabora para o clima geral de intolerância que, em situações extremas, coloca em perigo tanto a jovem branca e cristã quanto o jovem negro e muçulmano.

Vencer

vincereMarco Bellochio é o diretor de Bom Dia, Noite, um dos poucos filmes italianos que eu me lembro de ter gostado nos últimos anos. Mas eu também me lembro de ter boiado um pouco na história, que falava sobre o sequestro daquele Aldo Moro, primeiro-ministro da Itália. Eu sabia por cima quem era Aldo Moro e talvez um pouco sobre a Brigada Vermelha, mas, mesmo assim, senti que talvez tivesse “aproveitado” melhor o filme se fosse mais por dentro da história da Itália. E DIGO MAIS: a mesmíssima coisa aconteceu com o novo filme de Bellochio, Vencer.

A produção conta a história real de Ida Dalser, uma mulher que passou a vida inteira tentando provar que era casada com Benito Mussolini, e que tinha um filho com ele. O garoto foi reconhecido, mas Mussolini já era casado com outra mulher e, assim que começou a crescer como líder político, se livrou de Ida. Numa dessas ela já tinha vendido tudo que tinha e dado a grana pra ele fundar um jornal, e se apaixonado totalmente pelo cara, o suficiente para fazer dele meio que a razão de sua vida. E a insistência em provar que era mulher e mãe do filho de Mussolini acaba por colocá-la em um hospício, onde ela continua lutando para ter sua história reconhecida como verdadeira.

Quando comecei a ver o filme, eu nem sabia se essa mulher tinha existido mesmo ou se era uma história romanceada com fundo histórico. O Mussolini eu sabia que tinha existido, claro, mas também não sabia suuuuuuuper sobre a vida dele, o que me fez pensar que a Itália era meio coadjuvante nos livros didáticos do meu colégio.  Eu até estranhei a cena em que aparece o Mussolini de verdade, com aquele jeitão caricato (e falando bem da Igreja, sendo que na primeira cena do filme ele tinha dito que Deus não existia e la la la), porque acho que nunca o tinha visto falar. Nesse sentido, Vencer me “ensinou” algumas coisas. Mas entre “aprender” com um filme e “gostar” de um filme há uma grande diferença, e embora eu tenha me esforçado, acabei achando tudo tão interessante quanto arrastado. Não entendi bem o motivo mas, depois de ler muitas resenhas elogiosas, fiquei pensando se eu não perdi alguma coisa devido à falta de conhecimento sobre aquela história.

Porque, de fato, a trama é interessante, os atores são bons, a fotografia é bonita, as caracterizações de época são cuidadosas, é um filme muito bem realizado em geral, mas falta alguma coisa. Não sei se vocês já assistiram desfile de escola de samba, mas eu tive essa fase quando era criança e minha implicância particular (eu sempre tenho uma) era com a Imperatriz, porque todo ano era a mesma coisa: eles venciam com um desfile tecnicamente perfeito, mas que não empolgava ninguém. Mal comparando, achei mais ou menos isso de Vencer: tecnicamente perfeito, mas não me empolgou.

Mau Dia para Pescar

mal dia para pescarÉ sempre bom aproveitar a Mostra para ver uns filmes latinos que, apesar de terem sido feitos em países bem próximos, talvez não cheguem a estrear por aqui. Eu costumo dar sorte com latinos na Mostra e tenho especial preferência por mexicanos. Neste ano me dei mal com um argentino, A Invenção da Carne, sobre o qual não posso falar muito porque dormi durante praticamente toda a sessão (em minha defesa, era domingo à tarde, eu tinha trabalhado das 9h às 17h e o filme quase não tinha falas). Mas me dei muito bem com o uruguaio Mau Dia para Pescar, filme de estreia de Alvaro Brechner.

É verdade que a Espanha também deu grana para que o filme pudesse se tornar realidade, mas ele tem uma cara bem latino-americana. O grande tchan da história é um cara chamado Príncipe Orsini, agente de Jacob van Oppen, lutador alemão que já foi campeão do mundo mas, agora, ganha dinheiro fazendo exibições de sua força em cidadezinhas da América do Sul. Em uma vila argentina, Orsini lança um desafio à população: dará mil dólares para quem for ao ringue contra Jacob e resistir por três minutos. Trata-se, é claro, de maracutaia: ele não tem dinheiro para pagar ninguém e quer apenas publicidade e a grana dos ingressos da luta entre Jacob e um bêbado qualquer que ele subornar. O problema é que o bêbado da vez é preso e uma jovem aproveita para inscrever seu noivo na disputa. Dessa vez o desafio será legítimo, para desespero de Orsini.

Segundo o diretor – que estava na sessão em que eu vi o filme e parecia muito emocionado ao apresentá-lo -, Mau Dia para Pescar é sobre um “vendedor de sonhos” que já não acredita no sonho que vende. Ele fez uma comparação com um vendedor de produtos para crescer cabelo, e de fato é bem isso: Orsini tem carinho por Jacob, mas se aproveita dele e não acredita nas palavras que usa para descrevê-lo à população das tais cidadezinhas. Isso não faz do agente um babaca ou um aproveitador, de fato. Pelo contrário, o personagem é extremamente carismático, do tipo que vai ganhando a nossa simpatia até que, no fim, estamos torcendo e nos importando com ele.  O filme tem outros personagens bem construídos, como o próprio lutador, que é um cara gigante, mas de uma tristeza comovente. Os diálogos e o ritmo também são muito bons, mas, como eu disse, o Príncipe Orsini é mesmo o tchan. E DIGO MAIS: se a Mostra é sempre uma boa oportunidade para conhecermos artistas novos, eis dois nomes para nos lembrarmos: Alvaro Brechner e Gary Piquer, respectivamente diretor e ator de Mau Dia para Pescar, e ambos roteiristas desta divertida história.

A Pequenina

27-1830513992TEu só fui assistir esse filme porque a sessão para a qual eu realmente tinha comprado ingresso (Lebanon) miou e rolou uma substituição de última hora. Eu pensei em desistir, porque A Pequenina tinha tudo para ser um saco: uma tiazona que trabalha em um circo encontra uma menininha de dois anos que foi abandonada e passa a cuidar dela. Sessão da Tarde feelings? Pois é.

Mas eis que eu gostei bastante desse filminho italiano, que conseguiu o improvável: contar essa história sem sentimentalismo e até com bastante humor, visto que estamos falando de uma tiazona da Itália, e tiazonas da Itália são meio hilárias (talvez eu seja meio boba, mas a hora que ela falou “porca miséria” me deu vontade de gargalhar). A menininha, Asya, é muito fofa (como vocês podem ver no pôster) e por isso eu fiquei com medo do que poderia acontecer comigo no momento em que a história deixasse de ser sobre a felicidade da menininha fofa com as pessoas do circo, porque sempre, em todos os filmes, a mãe/pai/polícia chega para buscar a criança abandonada bem na hora que ela e a nova família já começaram a se amar. E DIGO MAIS: eu fui me preparando para esse momento em A Pequenina, mas, para a minha surpresa, ele não aconteceu. Fiquem tranquilos, não estou contando nada sobre o filme ao dizer isso. Apenas estou elogiando o fato de que o diretor resistiu à tentação de fazer o público chorar, optando por uma emoção mais verdadeira, por uma real simpatia da plateia pelos personagens. Gosto quando isso acontece.

Sobre Pais e Filhos

ORAD_A3_final.inddEste filme tcheco até que começa bem: um pai e um filho estão conversando na cozinha e, depois, partem para um passeio por Praga. A conversa continua, eles relembram o passado, contam segredos e acertam algumas contas, de forma que o filme meio que segue a proposta do Richard Linklater em Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-sol:  se passa no período de um só dia, com duas pessoas conversando sem parar. A diferença é que a tagarelice de Sobre Pais e Filhos é mais chata e cansa bem mais rápido. E DIGO MAIS: o tcheco não é o mais sonoro dos idiomas.

Só que o problema maior nem é esse, e, sim, o fato de que o filme não se resume ao passeio: há uma história paralela, em uma casa, onde um jovem loirinho conhece uma jovem loirinha e os dois também ficam de tagarelice sobre passado, presente , futuro e lá lá lá. Quando eu entendi quem era o jovem loirinho e quem era a jovem loirinha, já saquei o que ia acontecer ali e comecei a, mentalmente, pedir que o diretor recuperasse o juízo e mudasse de rumo. Basicamente, se tratava de um daqueles erros de roteiro que ferram o filme inteiro e eu, que já estava me irritando com o blá blá blá tcheco, fiquei repetindo um mantra do tipo “não faça isso, não faça isso, não faça isso”. Mas é óbvio que ele não me ouviu, fez a merda e ferrou um filme que, vamos dizer a verdade, já era ruim desde o começo.

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* Luísa Pécora *
Um dia eu fui ver Cidade dos Sonhos, do David Lynch; não entendi nada, adorei tudo, e desde então a vida é feita de cinema; ator sutil é comigo mesma, se chorar ou fizer macaquice na cadeira ao receber o Oscar entra na minha lista negra, ter duas horas de duração deveria ser privilégio de poucos e bons; no mais, é isso.

*

colaboradores: André Spera, Marcelo Cobra, Fel Mendes

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