A Mostra é uma ótima oportunidade para ver filmes orientais altamente desafiadores, como o já citado Amor Pulsa Mais Rápido que Sangue e o inesquecível Dumplings, talvez o meu título-padrão na análise de bizarrice. Eu sempre acho que vale a pena assistir até o pior dos filmes orientais, só para passar por uma experiência cinematográfica nova, e assim lá fui eu assistir Voluntária Sexual, sem nem saber a sinopse, empolgada apenas pela nacionalidade sul-coreana do diretor Kyong-Duk Cho.
O começo do filme prometia bastante: em um motel, a polícia prende uma jovem de camisola, um padre e um deficiente físico. Na delegacia, descobrimos que não se trata de um caso de prostituição: a jovem faz trabalho voluntário com deficientes e, com a ajuda do padre, se voluntaria para satisfazer o desejo sexual de um deles. Daí o título do filme, que vai bem até onde propõe a discussão sobre sexo e deficiência: afinal, se eles precisam de ajuda para comer e tomar banho, não deveriam poder ter ajuda para satisfazer esse outro tipo de necessidade? Eis um bom debate, que não progride devido a dois problemas principais.
O primeiro é a estrutura do filme, que não é apenas uma observação da história e sim uma reportagem sobre o caso da prisão no motel. Ou seja, temos que pensar que o filme que a gente está vendo é uma reportagem sobre “voluntariado sexual”, com depoimentos do padre, da jovem, da mãe do deficiente etc. Não bastasse isso, a reportagem se intercala com outros tipos de conteúdo de vídeo, como gravações que a menina (que é estudante de cinema) fez da vida do deficiente, ou de um curta-metragem sobre prostituição também de sua autoria. Basicamente, temos uma colagem de imagens, mais ou menos como naquele filme Redacted, do Brian de Palma, que fala sobre a guerra do Iraque unindo gravação de câmera de vigilância com vídeo de YouTube e filmagens feitas por soldados. Eu tenho um problema sério com esse tipo de estrutura, porque o resultado é quase sempre artificial e confuso. Eu preferia que as pessoas simplesmente contassem uma boa história, pois não há nada de errado em ser tradicional, principalmente se seu tema já é ousado o suficiente.
O que me leva ao segundo problema de Voluntária Sexual, que é o fato de a ousadia do tema não se traduzir em um filme ousado. Não é que eu queira ver um deficiente fazendo sexo, mas acho estranho que durante o filme todo a câmera fique mostrando aquelas pessoas falando coisas incompreensíveis e se mexendo de forma descontrolada, mas na hora da cena de sexo o close seja do rosto ou dos pés tortos, que o casal esteja no chão e a câmera se posicione por trás da cama, como que escondendo, ou mostrando sem de fato mostrar. Vocês poderiam argumentar que o diretor não quis expor o deficiente, mas eu levantaria a questão: todos aqueles closes e registros das dificuldades deles de falar, andar, deitar, tudo isso já não é expor o deficiente e meio que pedir ao público que tenha pena dele? E DIGO MAIS: quando a menina vai transar com o cara, praticamente não esboça reação. Talvez um suspiro, mas nada mais do que isso, o que me parece totalmente incoerente: não me entendam mal, eu sou super a favor de os deficientes terem a vida mais normal do mundo, mas acredito que uma mulher – aliás, uma menina – que fosse fazer sexo com um deficiente pela primeira vez não conseguiria esconder, ao menos, uma expressão de estranhamento. Novamente, o filme me pareceu desonesto, sem coragem de mostrar qualquer tipo de repulsa em relação aos deficientes que, infelizmente, é algo real. As duas únicas pessoas que de fato condenam a atitude da menina são a mãe e o namorado, mas não porque ela foi voluntária sexual de um deficiente e sim por questões pessoais: a mãe é diretora de um centro antiprostituição e o namorado não quer ser traído. Tudo isso, combinado ao final feliz e bobinho, me faz pensar que esse é um daqueles filmes que parece ousado por ter um tema espinhoso, mas que, no fundo, é convencional e sentimental. Certas histórias exigem diretores corajosos, e nem todo sul-coreano é Park-Chan Wook.
Essa história de fingir que documenta a ficção em vez de simplesmente fazer o filme de ficção tem mesmo cara de truque. No fundo não é fingir que não se está fazendo reality show, quando todo reality show já finge que não é filme?