Não me lembro em que momento ouvi falar do Castro Theatre pela primeira vez. Talvez em algum filme, talvez no guia da Califórnia que alguém deixou no trabalho e acabou ficando para mim. Fato é que, quando soube que iria para San Francisco, coloquei esse lindo cinema de rua na minha lista de coisas que não poderia deixar de fazer na viagem. Não é exagero dizer que estava mais empolgada em assistir um filme no Castro Theatre do que em ver a Golden Gate. Era esse o nível de empolgação.

O que há de tão especial nesse lugar? Bem, o cinema foi construído em 1922 e é um dos únicos dessa época que ainda está em operação nos EUA. De sua fundação até 1976 o Castro exibiu filmes mainstream. Depois, passou a preferir produções estrangeiras e exibições especiais (cópias diferentes, festivais etc). Hoje, só exibe clássicos: na semana em que eu estava lá, por exemplo, havia três sessões diárias de Um Corpo que Cai. Para o sábado estavam marcadas duas sessões de Lawrence da Arábia e no mês de julho vai rolar festival de cinema mudo, então vocês sacam a vibe.
Para mim, pareceu coisa dos céus que estivesse passando Um Corpo que Cai bem na semana que eu estava na cidade. Além de ser meu preferido do Hitchcock e top 10 filmes da minha vida, esse clássico do cinema ainda se passa em San Francisco, de modo que rolaram vários momentos do tipo “que legal, eu vi isso ontem!”.
O dia da minha visita ao Castro foi um dos últimos e melhores da minha viagem. Comecei andando no Golden Gate Park, depois pirei na Amoeba Records, supostamente a maior loja independente de discos do mundo, aí caminhei pelo Haight Ashbury ouvindo Jefferson Airplane pra entrar na vibe summer of love, e aí cheguei no número 000 da rua Castro, que vai dar no bairro de mesmo nome, um dos mais legais de San Fran. Quem assistiu Milk deve se lembrar da importância dessa rua para a história dos EUA e dos direitos homossexuais, então andar por ela quase todinha foi super legal.


O cinema é facinho de encontrar, principalmente por causa do letreiro, daqueles antigos e muito legais que a gente não vê quase nunca. A bilheteria é pequenininha, apenas uma moça vendendo ingresso a US$ 10 para a única sala – e que sala. O interior do Castro é demais: um auditório gigante com 1.400 lugares, mas que de alguma forma é super intimista, sem nada daquela vibe multiplex. A tela, grandona, fica coberta por uma cortina vermelha, as paredes são todas decoradas e o lustre é gigante e lindo. Fica iluminado todo o tempo do filme, mas sem atrapalhar, só dando aquele toque.


Quando entrei na sala já rolou uma emoção, mas quando o filme começou foi meio metal. Eu nem sei dizer o que eu senti quando vi o James Stewart na tela grande. Foi tão lindo que eu chorei. Foi um verdadeiro momento. Foi uma daquelas experiências da vida que fazem você se sentir privilegiada. Eu nunca tinha visto um ator dessa era na telona e, putz, como faz diferença. Já era fãzona do Jimmy Stewart, mas pela primeira vez pude realmente reparar em como ele estava sensacional, em cada expressão, cada olhar, em cada momento da atuação. Aí veio a Kim Novak, estonteante, maravilhosa, com aquele ar misterioso. Aí vieram as sacadas do Hitchcock, fudidas, aquelas linhas mudando de cor, aquela musiquinha de suspense…tudo parecia muito mais impactante agora que eu estava vendo o filme no cinema.
Não me entendam errado: sou super a favor das inovações tecnológicas, home theater, blue ray, televisão HD, etc e tal. Mas torço muito para que elas não acabem com o hábito de ir ao cinema. Podem me chamar de romântica, mas poucas coisas são mais prazerosas para mim do que esse ato de ir a uma sala legal, a luz apagar, o filme começar e você passar pela experiência. Rola uma magia. Pra mim realmente rola uma magia.
E DIGO MAIS: o Castro Theatre é só em San Francisco, mas Rio de Janeiro e São Paulo estão com mostras do Hitchcock em cartaz nesse momento. É a nossa chance de ver os filmaços dele na tela grande – bem como Jimmy Stewart, Cary Grant, Grace Kelly e tantos outros all time favourites. Viva!
Uau, belo cinema indeed! E tão envolvente que percebi que, ao longo do post, você foi ficando cada vez mais íntima de seu ídolo: o James Stewart, de repente, já era Jimmy! Cuidado com esses cinemas velhos e charmosos que espero que você continue visitando ao redor do mundo.